Críticas │ Calígula: O Corte Final (2023)

Calígula: O Corte Final (2023)Caligula: The Ultimate Cut

EUA/ITA, 2023. 2h58min. Classificação Indicativa: 18 anos. Direção: Tinto Brass. Roteiro: Gore Vidal (adaptado do roteiro original de), Masolino D’Amico. Elenco: Malcolm McDowell (Caligula), Teresa Ann Savoy (Drusilla), Guido Mannari (Macro), Helen Mirren (Caesonia), John Gielgud (Nerva), Peter O’Toole (Tiberius), Giancarlo Badessi (Claudius), Bruno Brive (Gemellus), Adriana Asti (Ennia), Leopoldo Trieste (Charicles), Paolo Bonacelli (Chaerea), John Steiner (Longinus), Mirella D’Angelo (Livia (como Mirella Dangelo)), Rick Parets (Mnester (como Richard Parets)), Paula Mitchell (Subura Singer).

Calígula: O Corte Final (Caligula: The Ultimate Cut, 2023), é uma reconstrução completa do polêmico filme de 1979, lançada em 2023, após três anos de trabalho do historiador e restaurador Thomas Negovan.

Esta versão remove as cenas de sexo explícito inseridas originalmente pelo produtor Bob Guccione, e foca na narrativa histórica e no desempenho dos atores. Diferentemente de uma simples “versão do diretor”, Calígula: O Corte Final (Caligula: The Ultimate Cut, 2023), é uma reinterpretação total da obra, utilizando materiais que nunca haviam sido editados.

A equipe teve acesso a cerca de 96 horas de filmagens originais de 1976 (uso de material inédito). O filme foi montado do zero e não utiliza nenhum frame da versão lançada anteriormente nos cinemas.

O foco desta edição é o drama histórico e a crítica social sobre o poder corruptor, eliminando o excesso de pornografia, que descaracterizou a visão original do roteirista Gore Vidal.

A nova montagem restaura cenas que valorizam a atuação de Malcolm McDowell (Calígula) e Helen Mirren (Cesônia), dando mais profundidade emocional e coesão aos personagens.

O filme foi remasterizado em 4K, possui uma nova trilha sonora composta por Troy Sterling Nies, e uma sequência de abertura animada por Dave McKean.

A crítica aponta que esta versão oferece uma experiência mais próxima de um “épico de prestígio”, do que de um “filme de exploração” (exploitation).

A narrativa é considerada mais clara, focando na ascensão e queda do imperador romano, em meio à corrupção e insanidade. O tempo de execução é de aproximadamente 178 minutos (2h58min).

Embora o foco permaneça em Calígula, atores como Peter O’Toole e John Gielgud, recebem um tratamento mais condizente com suas carreiras renomadas, apesar de alguns críticos ainda considerarem o tom do filme inconsistente.

O produtor Thomas Negovan anunciou a reconstrução do filme em 2020, buscando seguir o roteiro original de Gore Vidal (em vez das visões de Tinto Brass ou Bob Guccione). Após uma busca exaustiva, o estudioso de cinema localizou todas as filmagens originais feitas pelo diretor Tinto Brass, mas a Penthouse, detentora dos direitos, mudou de gestão e a nova administração entregou as filmagens a pessoas sem qualquer experiência em restauração cinematográfica. O resultado dessa restauração é que as cenas estão finalmente na ordem correta, mas montadas sem qualquer senso de estilo ou ritmo (ou ritmo muito lento).

Composta por material inédito, esta versão definitiva de 178 minutos, estreou no Festival de Cannes de 2023. Brass respondeu processando a Penthouse Films, afirmando: “Após inúmeras e infrutíferas negociações que se seguiram ao longo dos anos, primeiro com a Penthouse e depois com outros indivíduos obscuros, para editar o material que filmei e que havia sido encontrado nos arquivos da Penthouse, foi criada uma versão da qual não participei e que estou convencido de que não refletirá minha visão artística […]; O público de Cannes será, portanto, enganado pelo uso arbitrário do meu nome”.

Malcolm McDowell reagiu positivamente a esta versão, escrevendo no Instagram: “Graças ao brilhante trabalho de Thomas Negovan, uma das minhas melhores performances finalmente veio à tona, após 47 anos!”.

Em abril de 2024, a Drafthouse Films adquiriu Calígula: O Corte Final (Caligula: The Ultimate Cut, 2023), para distribuição na América do Norte e o lançou nos cinemas em agosto, seguido por um lançamento em Streaming e Blu-ray 4K UHD, este último apresentando novas entrevistas com McDowell e Negovan.

Esta “versão definitiva” recebeu críticas moderadamente positivas. No agregador de críticas Rotten Tomatoes, 66% das 41 críticas são positivas. O consenso do site é o seguinte: “Restaurando finalmente Calígula (Caligula, 1979), originalmente concebido, esta nova versão não eleva a notória epopeia à grandeza, mas contribui muito para justificar sua visão artística”. O Metacritic, que usa uma média ponderada, atribuiu ao filme uma pontuação de 62 em 100, com base em 6 críticas, indicando avaliações “geralmente favoráveis”.

Assombrado pelo assassinato de sua família, o jovem e desconfiado Calígula (Malcolm McDowell), toma o trono do decadente Império Romano ao eliminar seu avô adotivo, o decrépito e monstruoso Tiberius (Peter O’Toole), mergulhando em um ciclo de corrupção, violência e insanidade.

Calígula: O Corte Final (Caligula: The Ultimate Cut, 2023), é um filme completamente refeito, montado a partir de cenas inéditas do infame e polêmico filme de 1979, sobre o notório imperador romano Caio César Augusto Germânico, mais conhecido como Calígula.

Embora a equipe de reconstrução não utilize nenhuma cena da versão original exibida nos cinemas, muitas das cenas apresentam tomadas alternativas ou diferentes trechos dos mesmos momentos. Apesar de esta nova versão eliminar as cenas pornográficas inseridas pelo produtor Bob Guccione, ela mantém uma atmosfera sexual intensa. A nudez frontal é constante e as pessoas são frequentemente objetificadas, como no caso da macabra gliptoteca (museu ou coleção especializada em esculturas, estátuas e, historicamente, pedras finas gravadas (gemas)), de esculturas vivas de Tiberius.

Em sua essência, o filme sofre com ambições conflitantes. Guccione almejava um espetáculo pornográfico extravagante e de alta qualidade de produção, enquanto Tinto Brass buscava apresentar ao público a sua visão macabra e lúgubre da Roma Antiga. Em contraste, Gore Vidal pretendia que o filme fosse uma alegoria política séria. Embora a remoção das contribuições de Guccione atenue alguns dos excessos do filme, não resolve o problema mais profundo: ainda nos deparamos com os objetivos conflitantes de Vidal e Brass, como duas peças de um quebra-cabeça que não se encaixam de forma adequada.

Calígula (Caligula, 1979), é um filme com uma história rica. O que começou como uma épica história grandiosa, viu grande parte do filme acabar na sala de edição. Em seu lugar, surgiu uma produção violenta e pornográfica, que pouco lembrava o roteiro de Gore Vidal. Apesar do sucesso de bilheteria, graças à controvérsia em torno do filme, ele foi menosprezado pela crítica e o elenco o repudiou. Agora, Calígula: O Corte Final (Caligula: The Ultimate Cut, 2023), pretende apresentar a visão original do filme, um drama histórico fascinante e complexo que expõe o fascínio inebriante da sexualidade e do poder. O filme tem quase três horas de duração, é absolutamente fascinante e oferece uma exposição triunfante de como “o poder absoluto corrompe absolutamente”.

No entanto, o filme ainda carece de tensão dramática. Raramente vemos qualquer oposição séria a Calígula, o que priva a história de qualquer conflito significativo.

Os especialistas afirmam que Calígula: O Corte Final (Caligula: The Ultimate Cut, 2023), apresenta atuações excepcionais, em particular a interpretação hipnotizante de Malcolm McDowell, além de um desenvolvimento de personagens impressionante e um design de produção luxuoso.

No entanto, o filme sofre com problemas significativos de ritmo, sendo considerado por muitos como longo demais e arrastado. Tem-se planos longos que enfatizam os cenários luxuosos e obscurecem a movimentação. Parece uma versão preliminar que precisa de closes para acelerar o ritmo.

Algumas cenas funcionam muito melhor no original, graças a uma edição mais refinada. A visão da direção parece fragmentada, e a nova trilha sonora decepciona (a trilha é excessivamente moderna, fato este que não reflete as tendências musicais dos anos 70, época em que o filme foi rodado), em comparação com a original.

O conteúdo sexual e o nível de envolvimento continuam a dividir opiniões, com os críticos entre elogiar a melhoria na coerência narrativa e lamentar a duração excessiva, tornando esta restauração uma experiência polarizadora.

Esta é uma reconstrução de uma obra-prima de análise cinematográfica, criando uma versão do filme com uma outra coesão narrativa, e com as cenas adicionais, acaba se tornando um novo filme.

A remoção de toda a pornografia explícita desempenha um papel fundamental nessa coesão narrativa e permite que os temas políticos de Gore Vidal assumam o protagonismo. As atuações são realmente brilhantes, com as vozes originais dos atores restauradas, em vez das dublagens usadas para alguns personagens.

Helen Mirren ganha consideravelmente mais tempo em tela, o que é muito bem-vindo, e a atuação de Malcolm McDowell se revela como uma performance esplêndida e inesquecível. Mas, a nova trilha sonora não é uma grande melhoria em relação à trilha excepcional composta por Bruno Nicolai, sob o pseudônimo de Paul Clemente.

No entanto, há três exclusões significativas: uma delas é a morte de Proculus (Donato Placido), que deu um desfecho à inesquecível cena de violação do casamento, e é uma cena extraordinária por si só; a segunda foi a cena com Ennia (Adriana Asti), na cama sendo “atendida” por seus companheiros homens; a omissão mais decepcionante, no entanto, foi a conclusão da atuação de John Gielgud, quando Nerva e Calígula compartilham um momento impactante, e que se reflete posteriormente na já mencionada cena de Proculo, também cortada.

De qualquer forma, esta é uma façanha incrível de restauração, aproximando este filme extraordinário muito mais da visão idealizada por Tinto Brass e Gore Vidal. O resultado é um filme que por vezes é perspicaz, frequentemente grotesco, e que permanece comprometido pelas visões conflitantes de seus criadores.

A Direção de Fotografia continua excepcional, e a Direção de Arte, soberba. Mas, esta reconstrução é muito longa, muito lenta e arrastada demais… Funciona mais como curiosidade histórica, pelas novas cenas que foram cortadas do filme de 1979. Prefira o original!

Divirta-se!

Fontes: IMDb, The Movie Database (TMDB), fanart.tv, Sunshine Mesa, Vitagraph Films, Penthouse Films International, Felix Cinematografica, Drafthouse Films, A2 Filmes, Bac Films, NOS Audiovisuais, Tiberius Film, Umbrella Entertainment.